Tangerina I-Prólogo- Animal em cativeiro

10:14


-Pegue um animal.Crie ele em cativeiro a vida toda. Um belo dia solte-o. Mas então você percebe que essa não foi uma boa ideia.Para trazê-lo de volta não é tão simples, não basta apenas ir lá e captura-lo, ele se acostumou à liberdade.Mas tem uma solução, vá atrás do animal, agora "livre", meta-lhe o maior susto da sua vida, apavore-o, mostre que a liberdade é perigosa, faça-o tremer até a alma de medo. Então ele voltará para o cativeiro, e toda vez que pensar em sair de lá lembrará do horror que passou, e terá medo pelo resto da vida.

Foi exatamente isso que aconteceu à Esmé. Óbvio, ela não era um animal e não vivia em um cativeiro, vivia em uma casa, mas essa casa era praticante um cativeiro, pois de lá ela praticamente não podia sair. Era uma prisão tanto física quanto mental, pensamentos fora da ideologia dos membros da casa deveriam ser banidos e punidos. E exatamente como o animal descrito no início Esmé também gozara de liberdade momentânea e teve em um fatídico dia o mesmo fim que o pobre animal. Desde então ela vivia seus dias com medo de tudo, criara uma rotina própria para fugir de déjà-vus daquele dia, tinha horror ao pensar que aquilo pudesse acontecer de novo. Sua rotina a mantinha segura, e qualquer anormalidade nela a fazia temer que algo ruim poderia acontecer. Ela própria criou seu cativeiro e ela mesmo a mantinha dentro de seus limites com medo de sair e o pior lhe acontecer.
Ela era viciada em cafeína, pois na falta de qualquer outra droga para distrair o cérebro, o café foi a solução mas acessível e não apresentava suspeitas, pois afinal de contas era "apenas café". O café a preenchia e a corroía também, aquele liquido preto, quente e com cheiro forte era seu aliado.
Era viciada em paranóias também, pois para ela era melhor pensar em todas as possibilidades para um determinado acontecimento do que ser pega de surpresa.
Esmé, um pequeno animal trêmulo e assutado. Esmé, tinha suas vinte poucas primaveras mas dentro de si já havia vivido uns 300 invernos...

Continua?...

Barulhos coloridos

14:31
                                          
O mundo está cheio de barulho.Vozes.Conversas.Telefones.Gritos.Carros.Máquinas. 

["Ei!!" "Nossa você viu o que el..." Trim Trim trim!" "Desça daí garoto estou mand...!!!!" VRUMMMMM....mmmmmm..."  " Bip Bip Bip bi..." ]

Nosso interior está repleto de barulho também. Zumbidos inaudíveis ao resto do mundo, gritos abafados, ideias, planos... 

["Eu não devia ter feito" EU ODEIO TUDO ISSO, ODEIO!!!" "Talvez se..." "AAAAAHHHHHHH"]

Lá fora, as vozes se calam, as conversas cessam os telefones são atendidos ou ignorados. 
Mas e aqui? Aqui dentro de nós, o barulho pode ser desligado? Você pode colocar tampões ou fones de ouvido para não ouvir o próprio interior? Pode abafar talvez. 
Todavia, de noite ou de manhã, quando o mundo enfim se calou e você pode ouvir com mais atenção a você mesmo, isso pode ser um alívio ou um desespero total. Eu sei que você escuta, tuas ideias, tuas vontades, teus desesperos, teu medos. Tudo gritando aí dentro. 
Cientistas afirmam que o som pode ter cores, então imagine teu cérebro barulhento porém colorido.  Imaginando dessa forma fica tudo mais bonito. Uma explosão de cores vibrantes acompanhada de um barulho interminável. Quantas cores psicodélicas tem na sua mente?É uma rave! Tem uma festa na tua cabeça. Esqueça o mundo lá fora. Não tenha medo do barulho aqui dentro. Mas você sabe a hora de parar a festa? -Sarah E.

A redoma de vidro- Depressão não tem glamour

16:31
                                                   




"...Estaria sempre sob a mesma redoma de vidro, sendo lentamente cozida em meu próprio ar viciado."




A redoma de vidro foi escrito por Sylvia Plath e publicado em 1963. Foi o único romance da autora, mais conhecida por sua obra poética, foi escrito em uma época que  Plath sofria pela segunda vez com depressão e passava por um período conturbado de sua vida. A história é narrada e protagonizada por Esther Greenwood, uma jovem aspirante à escritora. O início do livro se passa em Nova York, onde ela está realizando um estágio na companhia de mais outras  garotas, mas diferente das demais, Esther não enxerga nada de maravilhoso nessa cidade tão famosa, ela acaba por se aproximar mais de duas garotas, Doreen e Betsy, ambas com personalidades totalmente contrárias. Mesmo nessa época Esther já demonstra alguns dos sintomas que levariam mais tarde ao diagnóstico de depressão (por exemplo, na sua última noite antes de regressar para casa, um homem tenta abusar dela e mesmo conseguindo sair dessa situação com uma marca de sangue no rosto ela não limpa o sangue e volta para casa com a mancha achando aquilo tudo ''normal''). Também nesse mesmo período descobrimos que ela estava comprometida com Buddy, um estudante de medicina com uma personalidade prepotente, mas que é essa prepotência toda que fornece alguns alívios cômicos na narrativa, ele acaba por contrair tuberculose e indo para uma clínica se tratar. Esther não o ama ou é apaixonada por ele, apenas continua com ele por causa de suas mães que apreciam a união. Quando Buddy decide pedi-la em casamento ela apenas responde que não pode, pois nunca irá se casar.
Quando regressa para sua casa começa a ter problemas de insônia e não se animar com mais nada que faz, ela passa noites sem dormir e passa a não trocar mais de roupa, pois não vê necessidade nisso. Com o tempo ela começa a ter pensamentos suicidas e ao procurar um médico este não lhe dar um devido tratamento apenas a indica para uma sessão de tratamento de choque que acaba por causar nela um grande trauma. Depois da primeira sessão ela decide nunca mais passar por isso, sua mãe fica aliviada com essa decisão por achar que apenas “loucos" passam por isso e sua filha estar passando por esse tratamento é uma vergonha para a família.
Os pensamentos suicidas continuam a persegui-la e mesmo cogitando algumas tentativas ela sempre acaba desistindo. Ela até mesmo planeja fugir ir para a praia onde seu pai a levava quando ele ainda era vivo, mas voltando até lá, ela não se sente como acharia que sentiria e volta para casa.
Um dia ela espera sua mãe sair, toma muitos comprimidos fortes e se esconde em um lugar no porão. Após alguns dias, sua mãe achando que ela havia desaparecido, acaba encontrando Esther semiconsciente e após isso ela é internada em uma clinica particular.
                                        
                                         
Sua estadia na clínica é paga por sua benfeitora da faculdade, que ao saber de seu estado decide ajuda-la, pois ela mesma já passou por isso. Lá ela fica aos cuidados da Dr.ª Nolan, que a trata bem e a ajuda a entender melhor seu estado mental. Na clínica ela própria questiona sua sanidade por muitas vezes.  O livro tem um final em aberto, não é dito o que acontece com Esther, se ela sai ou não da clínica é a pergunta que fica para o leitor. Mas se você quiser uma resposta basta pesquisar sobre a vida da própria autora, que acabou sim se recuperando dessa primeira depressão, mas na segunda vez acabou se suicidando. Ela morreu pouco tempo apos esse livro ser terminada.

     "Como eu poderia saber se um dia-na faculdade, na Europa, em algum lugar, em qualquer lugar- a redoma de vidro não desceria novamente sobre mim com suas distorções sufocantes?"


                                               

  Pois bem, quando eu peguei esse livro para ler, havia uma série de pessoas que falavam o quão forte era ele, e que se você tinha depressão devia evita-lo ou mesmo não tendo poderia se sentir incomodado. Quando comecei a ler acreditava que tudo isso era um mito, pois afinal o livro era maravilhosamente bem escrito e a narrativa era muito boa, havia momentos cômicos no livro que me faziam gostar ainda mais dele. Mas foi aí que eu percebi o motivo para esses comentários exagerados, o livro não faz uma divisão de quando a personagem começa a ficar doente, quando você menos espera, ela já estar tentando suicídio e sendo internada. É tudo narrado de uma maneira tão envolvente que você mesmo se vê como Esther, fazendo as mesmas coisas que ela e pensando como ela, e eu creio que seja assim nesses casos de depressão, é uma linha muito fina entre aquilo considerado saúde mental para esse quadro.

O que eu quero discutir aqui com vocês é que nessa época que  Sylvia Plath se matou muitas outras autoras também tinham tido depressão e tido o mesmo fim que ela, basta você pesquisar no Google ESCRITORAS SUICIDAS para ver o quão extensa é essa lista. Isso tudo criou duas vertentes de pensamentos: uma áurea de glamour sobre a doença, como se todo escritor só se tornava criativo ao chegar a esse estado. E se você fosse uma pessoa normal ter essa doença a transformava automaticamente em louca, em vergonha para a família, muitas eram internadas em clinicas que com esse pensamento a tratavam com terapias de choque.
Hoje a coisa não mudou muito, muitas pessoas associam depressão à loucura ou a drama e outras se usam desse termo para embelezar e romantizar essa doença, e a internet tá ai para comprovar isso. Você não deve comparar tristeza com depressão porque tristeza pode até durar muito, mas em pequenas coisas você ainda se anima, a depressão não é especificamente você se sentir triste, mas sim desanimado, e se irrita facilmente, você está triste e ouve uma música para tentar ficar melhor, mas com depressão você ouve músicas que antes lhe alegravam agora não fazem você sentir nada. Depressão não ajuda você a se tornar criativo para escrever, ela come sua criatividade como sua mente. Não a comparem com um coração quebrado porque um coração quebrado pode até ser consertado, uma mente quebrada é mais difícil.
Muitas pessoas não tem tratamento adequado por medo de revelar que estão doentes e ser discriminada ou não levado a sério. Ah, apenas profissionais podem de verdade afirmar se você tem depressão ou não. A mensagem que eu quero deixar para vocês é que não romantize a depressão, se puder espalhar só essa frase será importante, isso não é loucura, drama ou bonito, é uma doença séria que tem que ser tratada, pois se já é difícil tratar doenças físicas que você pode tocar a área que está afetada, imagine o quão difícil é tratar aquilo que não pode ser visto ou tocado?

Então é isso, eu super indico esse livro, não levem a sério quem diz que ele é "perigoso", mas saibam que ele é um tanto forte. Dei 5 estrelas e favoritei.

Metas de leitura 2016

15:46


Hoje faltam 3 dias para abril começar, 4º mês do ano. Mas mesmo assim ainda não é tarde para você propor uma meta de leitura para 2016. Além de te incentivar a ler mais, uma meta de leitura ajuda você que assim como eu tem compulsão por comprar livros, toda vez que decido comprar livros novos coloco como prioridade os que estão na minha lista.


Não reparem  minha letra, não existe letra feia sim letra exótica...
Esse meu caderninho eu organizei em janeiro, além da lista aí em cima, nele coloco todos os livros que já li e minha avaliação deles. Resolvi colocar como meta 70 livros para ler em 2016, isso dar uma média de 6 livros por mês, como março já está acabando eu já deveria ter lido uns 18 livros, no momento já li 15 e estou terminando mais 2, ou seja estou me saindo bem por enquanto.
Dentre esses 70 livros estabeleci 12 principais mais uma releitura de As Brumas de Avalon, e esse livro extra que desde ano passado quero ler. Vou fazer um resuminho pequeno de cada um aqui pois a medida que for lendo farei resenhas.

1.MAUS - A história de um sobrevivente.
Essa Graphic Novel foi escrita por Art Spiegelman como uma homenagem a seu pai, um judeu-polonês que viveu no tempo do holocausto. Para dar vida aos personagens o autor resolveu usar ratos para representar os judeus e gatos para os alemães, além de outros animais como porcos e sapos para fazer o leitor entender melhor o contexto histórico(também faz uma referência a propagandas da época  que representavam os judeus como ratos que deveriam ser exterminados para “limpar” a Alemanha). Com cenas fortes porém  bem trabalhadas, Spiegelman promove uma experiência de múltiplos sentimentos para quem ler a obra.

2 .Admirável mundo novo:

Quando foi o publicado em 1932 o autor, Aldous Huxley, temia aquilo que chamava de ditadura científica. A história narra uma sociedade do futuro altamente desenvolvida, bebês são gerados em fábricas, não há relações como de pai e mãe, todos tomam a SOMA, uma pílula que garante sentimento de satisfação e Ford( sim, Henry Ford) é o grande "Deus" desse novo mundo. Seu protagonista é  Bernard Marx,que um dia ao tirar férias começa a se questionar o quão perfeita realmente é essa sociedade. Essa distopia inspirou muitas outras que temos hoje, mas diferente das demais ela não tem medo de colocar o dedo na feriada e te faz pensar o quão perto estamos desse "admirável mundo novo". Não quero falar muito desse livro pois estou terminando de ler e em breve sairá resenha.

3.O grande Gatsby

( não lembro porque coloquei só Gatsby na minha lista)
Década de 20, EUA, lei seca sendo um tiro no pé e festas enormes e cheias de luxo. Esse é o cenário de  O grande Gatsby. Narrado por Nick Carraway, conta a história do misterioso Gatsby, seu vizinho que é raramente visto mas é conhecido por festas grandiosas. Nick descreve o quão fútil eram as pessoas dessa época, o quão melancólico tudo era por trás de todo o glamour, além de narrar a historia de amor entre sua prima Daisy e Gatsby.Já assisti tanto o filme com o Dicaprio quanto uma versão de 1974, ambos me encantaram. Esse livro comecei a ler ano passado mas parei logo no começo pois senti a necessidade de ler ele em inglês.

4. Cem anos de solidão

O que falar desse livro além que foi escrito pelo Gabo(Gabriel García Márquez)?. Talvez já tenha sido um dos melhores livros que li no ano e na vida, a história dos Buendía, família de um povoado chamado Macondo, faz você nunca mais querer sair desse livro, tudo escrito de uma forma que o leitor se vê junto desses personagens, acompanhando cem anos da história dessa família. Não posso me alongar muito, esse livro merece um post completo só dele.

5. Mistborn



                                                     
Um reino é assombrado pelas trevas a há mais de mil anos e dominado pelo tirano Senhor Soberano. Kelsier, é ladrão nesse mundo, mas que conseguiu escapar da ira desse rei, ele é um Nascido da Bruma, ou seja capaz de ter poderes de uma magia proibida.Seu plano é simples, destruir o Senhor Soberano e salvar o mundo. Sei pouco sobre esse livro mas por ser uma fantasia desse estilo quero muito poder lê-lo.

6. Cadê você, Bernadette?


                                                   
Tinha que ter algum livro engraçado na minha lista, então escolhi ler esse e conhecer Bernadette Fox, uma arquiteta casada com um nerd e que tem uma filha chamada Bee. Mas um dia Bernadette  desaparece do nada e Bee tenta acha-la enquanto descobre outro lado que não  conhecia de sua mãe. Livros assim não são o meu estilo mas algo me diz que irei gostar desse, como é um livro mais divertido e engraçado falar demais dele pode ser que estrague a leitura.


7. Na natureza selvagem

                                                            


Um livro que possui uma adaptação para os cinemas muito bela, com uma trilha sonora que eu tinha salva nos meus favoritos. Trata-se da historia real de Chris McCandless, um jovem que largou tudo e resolveu se aventurar na natureza indo em direção ao Alasca, mesmo sem equipamento ou experiência. Seu corpo foi achado em decomposição na floresta semanas depois de começar sua jornada, mas isso não é spoiler, é dito logo no início do livro. Mas o porquê de ter largado tudo o que tinha e o que viveu nessa jornada antes de ser achado morto é descrita por Jon Krakauer , um jornalista que refez todo o caminho de Chris e coletou informações de quem era esse jovem e de sua aventura.

Sarah E.?? SARAH É VOCÊ?!

10:24

Sarah E.? Sarah, é você?!!
Sarah  por quê você não escreve mais? Sarah, já fazem mais de 5 anos.


Eu tenho fobia de escrever. O lápis com esta ponta fininha, o papel branco com esse cheiro de escola, essas linhas tão retas, me apavoram. Meu Deus, essas ideias gritando aqui dentro me sufocam, tenho medo delas e por isso as ignoro. Eu tentei forçar mas saíram garranchos, umas coisas mal escritas que fariam qualquer um vomitar de tão ruim. 
A mente da gente é uma coisa curiosa, para " proteger" a gente ela cria umas grades de proteção com uma placa escrito: NÃO ULTRAPASSE! Mas é uma tenuidade muito grande essa entre o que nos traz proteção para aquilo que nos prende. E isso vale para qualquer coisa, até nossas crenças são uma proteção, nos sentimos seguros acreditando em determinadas coisas pois elas nos dão uma confiança de entender a vida, as fatalidades e tudo mais. Mas basta alguém tentar abalar nossas convicções que ficamos incomodados, nossa mente grita: Ei não acredite nisso! Você sabe que é mentira! Não se aproxime muito da grade!
A gente começa a temer  que pode acontecer se pularmos essa grade, medo disfarçado de um monte de coisa que a mente inventa para você não perceber.
Eu batizei o meu medo de um monte de nomes, o mais convivente era "procrastinação", sabe, aquilo que temos que fazer mas adiamos até não poder mais. Porém procrastinar é meio que normal, fazemos isso com matéria atrasada, com trabalho de escola. Mas eu estava procrastinando com a minha vida. E isso não é...normal. Metade das coisas que eu fazia não me animavam mais e a outra metade eu não fazia por...medo.Sei que estou repetindo muito a palavra medo mas eu preciso, eu mesma tenho que acreditar.
A fobia de escrever era só uma decorrência disso tudo. Mas eu resolvi escalar essas grades, elas são altas e eu até posso me machucar,  mas eu quero sair daqui. A minha mente grita que é suicídio, pede para que eu volte, mas o que ela não sabe é que esse tempo aqui" segura" eu comecei a ouvir tantas vozes que ela gritando fica abafada pelas outras, o que era para me desestabilizar está me servindo de escudo.
Eu sou Sarah Evelyn, e a partir de hoje volto a assinar com Sarah E., porque meu único dever ao escrever( ao viver também) agora é comigo mesma, eu quero ler minhas coisas e gostar isso é o que importa. Hoje começa minha jornada não de volta para casa mas sim de encontro a tudo que eu posso ser.



Ovelha branca

19:48

Eu já li quase todos os livros que estabeleci pra esse ano e mesmo assim não estou bem,  na verdade me propus mais livros mesmo sem terminar os da lista. A vida chegou ao inevitável ponto que se torna uma piada, isso sempre chega seja aos 30 anos ou aos 70, comigo chegou aos 18. Essa sou eu, uma piada. Uma piada bem sem graça mesmo que nem chegou a ser concluída naquela conversa de bar porque o narrador desistiu de contar ao ver que ninguém lhe dava atenção pois todos ali sabiam que o final era previsível e sem graça. 
O telefone toca agora incansavelmente, seu barulho soa pela casa vazia de forma ensurdecedora  e alheio ao fato de que o silêncio nesse momento é necessário e vital. Meu ódio a telefones é antigo,  odeio telefone tocando, odeio o fato de alguém querer falar em horas inapropriadas. Inapropriada, tá aí uma palavra que me descreve pra minha família,  ah céus o típico cliché de adolescente revoltada incompreendida pela família , a ovelha negra da casa!! Que saco desse roteiro. Mas não, não é assim aqui, porque pra começo nem ovelha negra sou, sou uma ovelha bem branca como todo o resto do rebanho, ou finjo ser. Sim, sou uma fingida,  na verdade é apenas uma fantasia de ovelha aqui que visto, e o que há debaixo dela? Que bicho? Não faço a menor ideia.
Eu sou assim, piso de mansinho, sigo as regras, e no fundo até medo tenho de me pegarem não as seguindo. Me contento com esse quarto,  essa mesinha que mal cabe minhas coisas mas o que cabe são coisas que são minha cara, a cara que ninguém vê porque tá escondida na fantasia de ovelha , a cara que nem o espelho do banheiro vê.
E eu assim, continuo fingindo e procrastinando e sempre colocando metas pra alcançar e ser "feliz" e sonhando e adiando tudo, até mesmo as cosas mais pequenas como a vontade de comer ou beber algo.
Essa sou eu: uma piada sem graça, um bicho debaixo da pele de uma ovelha branca.- sarah e.